História de um casamento
Sobre tudo que vem à tona quando duas histórias se encontram de verdade
Já começo dizendo que eu menosprezei o processo do casamento. Nunca fui aquela mulher que sonhava em casar. Queria sim encontrar alguém, mas o ato do casamento em si nunca foi um grande sonho de me vestir de branco, fazer uma festa etc.
Sei que tem pessoas que desde pequenas sabem o que querem no casamento, têm listas de referências e álbuns e álbuns, mas eu nunca fui essa pessoa. Nada contra, inclusive adoraria ter tido várias listas e referências quando casei, teria facilitado muito minha vida.
Até que conheci meu marido. Foi aquela paixão intensa, parecia que tudo fazia sentido, tudo se encaixava. Parecia que tudo que eu tinha vivido e passado tinha me preparado pra aquele momento, para nos encontrarmos. Meu marido também nunca tinha sonhado em se casar, ele inclusive falava que nunca ia casar quando era mais novo. Mas aí vem a vida e faz a gente morder a língua e repensar as coisas.
Nosso encontro foi tão profundo e tão gostoso que ficamos com vontade de celebrar. E qual a melhor forma de celebrar esse encontro se não em um ritual tão importante…enfim decidimos nos casar. Ficamos noivos depois de um ano juntos.
Com a mesma rapidez que aquele anel entrou no meu dedo meu cérebro rapidamente acionou meu lado planejadora, ou sendo muito sincera, meu lado controladora.
Comecei a pensar em opções e cenários: se teria festa ou não, qual seria o orçamento, quantas pessoas, etc. Como nenhum dos dois tinha isso como um sonho, começamos com uma folha em branco e quisemos fazer algo que fizesse sentido pra gente, ou seja, pesquisamos e questionamos cada tradição pra entender se fazia sentido ou não. Por exemplo: usar aliança ou não, fazer festa ou não, entrar de branco ou não, usar véu ou não…uma lista sem fim.
Acabamos decidindo por uma festa, mesmo que pequena, num desses esquemas de uma casinha já meio com tudo pré contratado, pra não ter muito trabalho e pra não precisar de assessora. Eu não queria ninguém me falando precisa ter isso ou precisa ter aquilo. Afinal já tinha pesquisado e questionado bastante como vocês podem imaginar.
Enfim, achei que estava arrasando racionalizando tudo, entendendo o que fazia sentido pra gente e dando conta de uma lista sem fim de coisas pra fazer. Um checklist sem fim é comigo mesmo. Minha listinha de tarefa no Notion (onde me organizo) tem coisa até pra 2034. Eu disse que sou planejadora/controladora.
Mas aí que eu vi o quanto eu que subestimei o casamento. Mesmo com tudo encaminhado, contratado, organizado, começaram a aparecer outras questões. Questões bem mais complexas de lidar ou, em alguns casos, só aceitar.
Um casamento vai muito além de assinar um papel ou organizar um evento. Um casamento mexe nas nossas estruturas, nos nossos traumas, no nosso sistema familiar como um todo. São duas pessoas com duas vidas e histórias diferentes firmando um compromisso.
O que realmente exigiu esforço meu e do Paulo não foi a organização. Foi lidar com cada questão que foi aparecendo durante o processo. São expectativas que surgem, traumas que reaparecem, crenças nossas ou de familiares que vêm à tona. E precisamos lidar, colocar limites, definir quem queremos ser nessa nova família. Questões que tivemos que resolver como casal, mas também questões que tivemos que resolver individualmente. Às vezes sendo necessário agir, outras só apoiar ou escutar.
E claro, talvez várias dessas questões venham quando a gente namora ou já mora juntos por muito tempo, mas um ritual é sempre transformador. Ele acelera e mexe em muita coisa.
Por isso, se eu pudesse deixar uma dica, seria: esteja aberto para sentir e processar a avalanche que vem junto com um casamento. Que vai muito além de um papel, uma festa ou um vestido. Mas, também é tudo isso, e vale a pena cada segundo.