A vida não é estatística
A força do feminino e o processo de engravidar: Entre exames, números baixos e um positivo inesperado
Descobri que estou grávida. Foi um misto de sentimentos.
Mas antes preciso voltar alguns passos.
Tenho 34 anos e, há uns dois anos, fui na ginecologista porque estava tomando alguns remédios que desregularam minha menstruação. Obviamente tive que fazer um monte de exames. No meio deles estava o tal do anti-mulleriano.
Talvez você já saiba o que é. Minhas amigas com certeza sabiam. Várias falavam sobre investigar fertilidade desde cedo e sobre o temido anti-mulleriano. Elas já tinham todo um linguajar próprio sobre fertilidade, FIV (fertilização in vitru), congelamento de óvulos, embriões etc.
Eu, honestamente, nunca me encanei muito com isso. Sempre achei que congelar óvulos era meio uma máfia…aquelas coisas da indústria para ganhar dinheiro em cima do medo das mulheres. Um dia desses, inclusive, uma amiga mandou foto de uma propaganda na academia dela: “Trintou, congelou”.
Não me entenda mal. Sou super a favor dos avanços da medicina, principalmente quando são necessários. Mas tratar algo tão complexo como se fosse tomar um remédio pra dor de cabeça me pega demais. Parece que virou mais um item no checklist da vida adulta. Encontrar um cônjuge, check. Casar, check. Congelar óvulos, check. Gastar muitos dinheiros no meio do caminho, check. E tudo bem fazer tudo isso, a questão é quando deixa de ser uma escolha pessoal e passa a ser quase que uma obrigação social.
Enfim, como dá para perceber, não era algo que eu estava muito afim de fazer. Só que a vida adora chacoalhar nossas crenças….Voltando ao exame. A médica colocou o anti-mulleriano no meio dos outros pedidos e eu nem sabia o que era. Quando o resultado saiu, lá estava: 0,09. Quando vi fui investigar o que era e entendi que o “normal” para ser considerada uma taxa fertilidade boa era bem maior do que isso. Ou seja, um sinal claro de que minha reserva ovariana era muito baixa.
A partir daí foram muitas consultas, perguntas, pesquisas no Google e no ChatGPT, sessões de terapia e trocas de médicos. Uns melhores, outros piores. No final já estavam me perguntando se eu era da área da saúde de tanto que eu já sabia sobre fertilidade.
A princípio falaram que só o anti-mulleriano não dizia muita coisa que eu precisava fazer outros exames. Mas os outros fatores também não estavam dos melhores. Não era só a reserva baixa. Meu FSH também estava alto, o que indicava um quadro de pré menopausa.
Ou seja, melhor congelar.
Nisso entrei em um processo bem filosófico do que fazia sentido pra mim ou não, pois essa questão envolve muitas coisas. Eu queria congelar óvulos? Eu queria mesmo ser mãe? Eu estava disposta a arriscar e talvez não ter mais a possibilidade de ser mãe no futuro? Entendi que depois de muita terapia que gostaria de ser mãe sim e que tinha receio de arriscar e me arrepender depois.
Depois viram outras perguntas também bem complexas. E se meu marido não pudesse ter eu estaria disposta a receber uma doação de esperma? Ou de óvulos mesmo caso não desse certo? Estava disposta a adotar uma criança? Seria melhor congelar óvulos ou embriões? Embriões aparentemente tem mais chances de dar certo, mas e se eu separasse do meu marido eu abriria mão dessa chance.
Tive que pensar em tudo isso e no fundo algo dentro de mim, bem lá no fundo me dizia que não deveria me preocupar com tudo isso que o que fosse pra ser seria. De qualquer forma como a situação me foi imposta pensei e refleti o máximo que pude e decidi congelar óvulos.
Entrei no processo já entendendo que talvez, no meu caso, seriam necessárias várias coletas. As estatísticas diziam que idealmente seriam necessários cerca de oito óvulos para conseguir um embrião viável.
Fiz o primeiro ciclo de coleta e consegui incríveis… um óvulo. Ou um ovo, como eu chamo carinhosamente. Ou seja UM OVO apenas.
Apesar da frustração, por algum motivo senti como se tivesse tirado um peso das costas. Era como se eu tivesse feito algo pelo menos, pois não estava simplesmente negando a situação.
Mas aí veio a pergunta prática: se eu fosse conseguir um óvulo por vez, qual era o meu limite? Porque é um processo intenso fisicamente, psicologicamente e financeiramente.
Decidi que faria mais algumas vezes, mas não oito. Não queria transformar minha vida em um laboratório. E deixaria a vida rolar. Afinal, estatística explica muita coisa, mas a vida não é estatística.
No meio disso tudo, tinham viagens programadas e perdi alguns ciclos de coleta. E então, em um desses períodos, minha menstruação atrasou.
Minha primeira reação foi achar que estava entrando na menopausa. Afinal, era isso que os exames estavam mostrando. Mas depois de alguns dias me sentindo estranha, diferente, sem entender o que estava acontecendo comigo, decidi fazer um teste.
E lá estava. Grávida.
Realmente, a vida não é apenas estatística.
Foi um misto de sentimentos porque eu não estava esperando. Sim, falávamos sobre filhos há uns dois anos, mas muito por todo esse cenários e não necessariamente por que queríamos ter filhos naquele momento. Foi quase como se a vida tivesse colocado essa pauta na mesa por mim e dito: agora você vai olhar para isso.
E sim, acabamos relaxando. Pelos sinais, não parecia que seria tão fácil engravidar. Mas a vida sempre surpreende.
Ao mesmo tempo veio uma felicidade e uma gratidão muito grandes. Meu marido tinha acabado de mudar de emprego, que seria melhor pra gente. As coisas começaram a fazer sentido de um jeito que eu não tinha planejado.
Eu sempre fui muito controladora. Mas existe um lado meu que acredita profundamente que, quando nos entregamos ao processo da vida, as coisas fluem da forma que precisam fluir. Se ainda não deu certo, talvez ainda exista algo para aprender.
E isso só reforça pra mim o poder do feminino. Quando tudo que é racional, médico, estatístico indica um caminho, ainda vem uma força que consegue mudar o rumo das nossas vidas. Contradizendo tudo e a todos, tem coisas que são muito maiores do que conseguimos racionalizar.
Às vezes é fé. Às vezes é confiar. Na maioria das vezes é amor.
Não significa que devemos entrar em negação, mas que é importante se entregar aos processos e acreditar na vida. Principalmente para nós mulheres, nos conectarmos com essa força do feminino. Que vem com ainda mais força com a maternidade. Afinal de contas gestar e criar cada partezinha de uma criança é um milagre inexplicável.
Ser mulher é uma verdadeira potência.
E gerar uma mulher é uma potência em dobro. Obviamente sem menosprezar mães de meninos, todas somos uma potência.
Letícia tá no forninho e já chegou me mostrando que preciso confiar na vida.
Que venham muitas lições pra essa mãe e mulher em construção.